Os Fantoches de Madame DiaboA Paris de Xavier de Montépin
Guia de campo dos lugares onde o romance acontece — três caminhadas,
três excursões e o que sobrou de 1879.
Caminhadas em Paris
Excursões de um dia
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O oeste nobre
Do Faubourg Saint-Honoré a Saint-Sulpice
≈ 6 km · 3 a 4 horas · começa em Miromesnil, termina em Saint-Sulpice
O eixo aristocrático do romance, e o único roteiro que atravessa o Sena. Começa nos palácios de recepção da margem direita, desce ao rio pela rua onde mora a fortuna nova, cruza para os Inválidos e termina na igreja onde o livro se fecha. Se o dia for curto, corte na ponte do Alma: a primeira metade se sustenta sozinha.
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Rua do Faubourg Saint-Honoré
Rue du Faubourg Saint-Honoré, 8e Miromesnil (9, 13) ou Champs-Élysées–Clemenceau (1, 13)
Duquesa Joana de ChaslinBranca Renée
No romance
Aqui fica o palácio de Chaslin, o endereço mais aristocrático do livro: “entre um grande pátio e um imenso jardim”, com dois portões para as carruagens entrarem e saírem em fila nas noites de recepção. É onde a Duquesa vive reclusa por uma doença do coração, e onde uma dama de companhia recém-chegada começa a mover as peças.
Hoje
A rua da presidência da República — o Palácio do Eliseu tem exatamente a mesma planta que Montépin descreve, pátio na frente e jardim atrás. Os outros palacetes viraram embaixadas e casas de moda. Ande devagar e olhe pelos portões entreabertos: é a única forma de ver os pátios.
Avenue des Champs-Élysées, 8e Champs-Élysées–Clemenceau (1, 13)
Lazarine
No romance
Detalhe que quase ninguém repara: o jardim do palácio de Chaslin “estendia-se até aos Campos Elísios, dos quais o separava uma grade”. Os fundos dos palacetes davam para a avenida. É também o cenário do desfile mundano do Vol. I, de carruagem, à hora certa, para ser visto.
Hoje
O trecho arborizado entre a Concórdia e o Rond-Point é o que menos mudou — ainda é jardim, não vitrine. A parte comercial que todo mundo fotografa fica adiante e não interessa ao livro.
Rue François 1er, 8e Franklin D. Roosevelt (1, 9) ou Alma–Marceau (9)
Heitor BégourdeCésar
No romance
O palácio do Príncipe de Castel-Vivant, casa de novo-rico que Montépin descreve com deleite: a sala de fumar “forrada de couro fulvo e alumiada pelas cem velas de um lustre de ferro forjado”, com estantes que guardam, “em lugar de livros, caixas de charutos”, e panóplias de flechas envenenadas com curare. No gabinete, o móvel florentino de ébano onde dormem os testamentos sucessivos — e de que depende metade da trama.
Hoje
O coração do Triângulo de Ouro: alta-costura, joalherias, sedes de grife. Os palacetes do século XIX continuam de pé, quase todos convertidos em escritórios. O contraste com o que a rua era serve ao livro: dinheiro novo então, dinheiro novo agora.
O fim da fuga de barco depois do duelo: rema-se o Marne até o Sena e o Sena até o desembarque “na praia, junto da ponte de l'Alma”. São cinco horas de remo desde Créteil, e o ponto foi escolhido por ficar a poucos minutos a pé da rua Francisco I — a maneira mais discreta de levar um homem baleado para casa.
Hoje
A ponte foi refeita nos anos 1970; do original de 1856 restou o soldado zuavo, que os parisienses ainda usam como medidor das cheias. Debruce-se sobre o parapeito rio acima: é de lá que o barco vinha.
Aqui é o corte natural. Para continuar, atravesse pela ponte Alexandre III — dez minutos, e a vista compensa.
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Avenida de Villars
Avenue de Villars, 7e Saint-François-Xavier (13) ou Varenne (13)
Maria
No romance
A grade de honra do palácio de Vergis, por onde entram as visitas. O parque da casa, “encantadora redução do parque Monceaux”, começa aqui e desce até o boulevard dos Inválidos. O gabinete do Conde fica no primeiro andar, “muito distante do vasto quarto da Condessa” — e essa distância é um dado da trama, não um detalhe de decoração.
Hoje
Avenida curta entre a praça de Breteuil e a esplanada dos Inválidos, um dos endereços mais caros de Paris. Vizinha do Museu Rodin. Os palacetes com pátio e jardim murado continuam exatamente assim.
Os fundos do palácio: os jardins “plantados de olmeiros e de tílias seculares” terminam num muro de quase três metros, e no muro há “uma porta de um só batente, quase oculta do lado do palácio sob a espessura das trepadeiras”. É por ali que a Condessa sai de noite. À meia-noite de 1879 o boulevard estava “deserto e silencioso como uma via de Herculano ou de Pompeia”, com os candeeiros de gás “só aceso um sim e outro não”.
Hoje
Tudo continua onde estava: o boulevard corre entre os Inválidos e a rua de Sèvres, ainda ladeado por muros de jardim. O relógio do Dôme continua a dar as horas ao longe, como no romance. Vá de noite se puder — é o lugar deste roteiro que mais recompensa o escuro.
O trecho que a Condessa faz a pé, sozinha, depois de sair pela portinha do muro. O romance cronometra o percurso: é curto, e por isso mesmo perigoso — a qualquer momento alguém pode reconhecê-la. Da porta do jardim à rua de Bellechasse são poucos minutos, e o livro os conta um a um.
Hoje
A rua do Museu Rodin, no Hôtel Biron, e do Hôtel Matignon, gabinete do primeiro-ministro. Faça o trajeto no mesmo sentido dela: boulevard dos Inválidos → Varennes → Bellechasse. Leva sete minutos e explica a tensão da cena melhor que qualquer nota de rodapé.
O fim do itinerário noturno. Ali fica “um palacete de dois andares”, com um corredor sombrio e “um pequeno toucador, iluminado pela luz viva de dois candelabros colocados em cima do fogão”. É a sala das entrevistas secretas do volume — o cômodo em que a Condessa deixa de ser condessa por uma hora.
Hoje
Desce da rua de Grenelle até a beira do Sena, a poucos passos do Museu d'Orsay. Os palacetes continuam de pé, hoje em boa parte ministérios e embaixadas.
A morada do doutor Frébault — o único endereço do volume dado com número exato e sem elisão: “A minha morada está no meu bilhete, rua de Verneuil, n.º 4.” É para lá que Lucilia vai de ônibus desde Belleville, atravessando Paris inteira, e é a viagem mais longa que uma personagem faz dentro da cidade.
Hoje
Rua tranquila entre a rua do Bac e a dos Saints-Pères. Ficou célebre por outro morador: Serge Gainsbourg viveu e morreu no nº 5 bis, quase em frente — a casa abriu ao público em 2023. O nº 4 e o nº 5 bis se olham.
Place Saint-Sulpice, 6e Saint-Sulpice (4) ou Mabillon (10)
MariaJacques SureauCésar
No romance
O lugar onde o volume termina. “A nave imensa, silenciosa, cheia ainda dos perfumes do incenso arrefecido, mergulhada numa meia claridade misteriosa, estava quase deserta.” Em meio da nave, quase em frente do coro, um genuflexório de veludo escarlate cuja caixa fechada à chave serve de caixa postal clandestina — e no último capítulo três personagens passam por ele em sequência, cada um sem saber do anterior.
Hoje
Segunda maior igreja de Paris, aberta à visitação. Entre pela porta lateral da rua Férou, ao canto — é por ali que os personagens entram. Procure a fileira de cadeiras diante do coro: o genuflexório de aluguel era exatamente isso, e a caixa sob o assento existia mesmo.
“Uma casa velha de aparência aristocrática, mas sombria e tristonha como todas as desta antiga rua.” É nela que desemboca a saída lateral da igreja, o que faz dela a rota discreta de todas as cenas do genuflexório. O cocheiro de Sureau posta-se ali ao lado, ao pé do seminário, com os olhos no portal.
Hoje
Uma das ruas mais bem conservadas do bairro, ligando a praça ao Luxemburgo. Num dos muros está pintado, por inteiro, o Bateau ivre de Rimbaud. Termine o roteiro lendo o poema — não tem nada a ver com o livro, e é o melhor final possível.
≈ 3,5 km · 2h30 · começa na Ópera, termina no parque Monceau
O roteiro mais denso do livro em metro quadrado: num quarteirão e meio ficam a agência que fabrica as intrigas, o palacete do homem que as encomenda e a porta secreta que liga os dois. Depois sobe para o bairro novo onde o dinheiro foi morar. É plano, curto e cheio de cafés — o melhor para um fim de tarde.
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Praça da Ópera e o Café da Paz
Place de l'Opéra, 9e Opéra (3, 7, 8)
Doutor Antonino Frébault
No romance
O posto fixo do doutor Frébault, sempre “no seu lugar habitual” no terraço: de manhã, “água com açúcar, com uma gota de flor de laranja”; à noite, “à maneira de absinto, um líquido qualquer predileto da elegância”. É ali que se vai buscá-lo quando alguém precisa de médico depressa, e ali que se trocam as notícias que fazem a intriga andar.
Hoje
Aberto no mesmo lugar desde 1862, na esquina do Grand Hôtel. A sala de teto pintado é monumento classificado. Tome alguma coisa no terraço à hora em que o Frébault tomaria — vale o preço como cenografia.
Onde Marcel Laugier se hospeda quando volta a Paris. Nos dois volumes o hotel funciona como território neutro: quem está entre uma vida e outra dorme aqui.
Hoje
É o InterContinental Paris Le Grand, colado ao Café da Paz — na prática, o mesmo edifício. Entre no saguão; ninguém vai perguntar nada.
Boulevard des Italiens, 2e/9e Richelieu–Drouot (8, 9)
Heitor BégourdeDoutor Antonino Frébault
No romance
O coração da vida masculina de café do romance. Aqui ficavam o Café Riche, o Café Inglês e a casa de Brébant, onde se ceava depois do teatro e onde se decidiam as coisas que não se decidem em casa.
Hoje
Os três sumiram — o Café Inglês foi demolido em 1913. Restaram o traçado, a largura da calçada e os prédios. É a parada em que o roteiro serve para olhar o que não está lá: um boulevard de teatros e restaurantes virou um boulevard de bancos e lojas de rua.
Rue de la Victoire, 9e Le Peletier (7) ou Trinité (12)
João MalpertuisEstanislau Picolet
No romance
A agência Malpertuis, numa casa “de sofrível aparência”: o portão dá, “por um corredor de abóbada”, para “um grande pátio formando um quadrado perfeito”, e o escritório ocupa todo o primeiro andar do corpo do fundo. Na rua, duas tabuletas de mármore negro com letras de cobre dourado. Dentro, mogno maciço, percalina verde e portas estofadas para que “qualquer palavra proferida em voz alta numa sala não pudesse ser ouvida na próxima”. A divisa da casa: “Túmulo dos segredos!”
Hoje
Rua do 9º entre a Ópera e Notre-Dame-de-Lorette, hoje conhecida pela Grande Sinagoga no nº 44 — inaugurada em 1874, já estava lá quando a cena se passa. Espie os pátios pelos portões: a planta de corredor abobadado e pátio quadrado se repete a rua inteira.
Rue de Provence, 9e Chaussée d'Antin–La Fayette (7, 9)
CésarJoão Malpertuis
No romance
O palacete do Barão — e a vizinhança é o truque inteiro. “Os fundos do palacete eram juntos ao segundo corpo de uma casa de cinco andares da rua de la Victoire”, e uma porta “secretamente aberta e habilmente dissimulada no muro de permeio” liga a casa ao gabinete da agência. No primeiro andar, a biblioteca sempre trancada, onde uma estante movediça esconde a passagem.
Hoje
Paralela à rua de la Victoire, atrás das Galerias Lafayette. Faça o que o romance faz: ande até a esquina e volte pela outra rua. São duzentos metros de contorno para um homem que atravessava a pé, por dentro, em vinte segundos.
No nº 94 ficavam o antigo palácio de Leroux e o cartório do tabelião Jomard — o escritório onde se assinam os papéis de que dependem as heranças do Vol. I.
Hoje
Avenida haussmanniana intacta. A poucos passos, no nº 102, ficava o quarto de Marcel Proust, forrado de cortiça — outra história, mesmo quarteirão.
Boulevard Malesherbes, 8e Saint-Augustin (9) ou Villiers (2, 3)
Genoveva LeinenHeitor Bégourde
No romance
O apartamento de Genoveva Leinen, mulher mantida com dinheiro alheio: “uma casa de grande estilo”, guarda-portão no vestíbulo, primeiro andar, “uma enfiada de quartos mobiliados com mais luxo que gosto” e, ao fundo, um boudoir com chaise-longue e jardineira de laca vermelha. O endereço diz sobre ela tudo o que ela não diria.
Hoje
Artéria aberta em 1861, entre a Madeleine e a praça Général-Catroux, com as mesmas fachadas de pedra. Repare nos vestíbulos de entrada: a loja do guarda-portão continua desenhada no mesmo lugar em quase todos.
O palacete de Lazarine, o quartel-general dela em Paris, nos dois volumes. A planta da fuga clandestina é uma pequena obra de engenharia narrativa: sai pela escada de serviço do gabinete de toilette, atravessa o jardim de inverno, “onde parou para colher uma rosa quase aberta que pôs no peito”, passa a um jardim pequeno fechado por grade, abre a grade com uma chavinha e sai.
Hoje
O bairro foi construído nos anos 1860-70 e está praticamente intacto — é o lugar de Paris onde o romance é mais fácil de ver. A rua Murillo margeia o parque; as grades e os jardinzinhos que ela atravessa continuam ali.
Onde a fuga termina e o fiacre espera: “pisou resolutamente o passeio deserto, chegou ao boulevard de Courcelles”. Ali ficava a estação de trens de aluguel, com a tabela citada no texto — vinte francos até a uma da manhã, quarenta para a viagem ao Marne, “e mais a gorjeta, segundo o costume”.
Hoje
Limite norte do parque, com a rotunda de Ledoux na esquina. A estação de fiacres virou ponto de táxi e a boca do metrô Monceau. Se for seguir para o Marne no outro dia, é daqui que ela partiu.
≈ 4 km · 2h30 · começa em Belleville, termina em Bastille — quase tudo em descida
A metade pobre do romance, e a que mais mudou. Belleville e Ménilmontant foram anexadas a Paris em 1860 e o livro ainda as trata como um lugar aonde se viaja: um jornalista que vai à estreia enfrenta “a inverossímil extensão de uma viagem a Belleville”. Aqui o casario do romance não sobreviveu — as ruas ficaram, os prédios não. É um roteiro de traçado e de encosta, não de fachadas, e ganha muito se você fizer no fim da tarde.
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Rua Julien Lacroix
Rue Julien-Lacroix, 20e Belleville (2, 11) ou Pyrénées (11)
Lucilia GonthierFernando Volnay
No romance
O endereço mais importante do volume depois da agência: no mesmo prédio moram Lucilia, o ator Fernando Volnay e a senhora Verdier, e é dessa coincidência que sai toda a intriga. Sobe-se até “o primeiro vindo do céu, o que quer dizer no quinto andar”. O quarto de Lucilia é forrado de “papel azul e branco de quinze sous a peça”, com leito de ferro e um cuco na parede. E a frase que resume a personagem inteira: “A chave, tocante confiança, achava-se da banda de fora.”
Hoje
Foi largamente reconstruída na renovação urbana dos anos 1960-80: os prédios de cinco andares com cubículo de porteira sumiram. A parte alta beira o Parc de Belleville, aberto em 1988 — suba até o mirante, é uma das melhores vistas de Paris e não existia no tempo dela.
O cenário central da Segunda Parte, na cour Lesage. Em noite de estreia, “duas intermináveis filas, que principiavam debaixo do peristilo, serpenteavam, contidas por barreiras móveis ao longo da fachada”; dentro, mil e quinhentos lugares e as “cariátides humanas, cujos ombros pareciam sustentar os tetos baixos das terceiras e quartas galerias”. É pelo buraco do ponto que o galã escolhe uma espectadora na plateia.
Hoje
Aberto em 1828, queimou em 1867 e foi reconstruído em um ano — o prédio que Montépin descreve tinha doze anos de idade. Demolido em 1932; a sala Art Déco que o substituiu fechou em 1962. No lugar houve supermercado e depois armazém asiático. Do teatro não restou nada além do endereço.
Rue Compans, 19e Place des Fêtes (7bis, 11) ou Botzaris (7bis)
Branca RenéeCésar
No romance
O chalé de Branca, na “vertente oeste das alturas de Belleville”: um “muro bastante elevado, coroado de hera”, uma “porta de um só batente, pintada de escuro” e, no fim de um jardim de alamedas areadas, “um bonito chalet minúsculo” parecido com essas “curiosidades de mesa de sala que se fabricam às grosas na pátria de Guilherme Tell”. Uma casa de boneca para guardar uma pessoa.
Hoje
Hoje inteiramente urbana — nada resta dos jardins murados. No texto chega-se de fiacre pela rua da Criméa, “à entrada, junto do Square”: esse square é o parc des Buttes-Chaumont, aberto em 1867. Entre nele; é o parque mais estranho de Paris e o romance passa ao lado sem saber.
Rue de l'Élysée-Ménilmontant, 20e Ménilmontant (2) ou Père Lachaise (2, 3)
Fernando VolnayEstanislau Picolet
No romance
Casa de baile e jantar onde a gente do bairro vai comer quando está “em maré de dinheiro”. A casa põe “um gabinete” à disposição dos fregueses, e é nesses reservados que as conversas do romance ficam a sós.
Hoje
O baile sumiu, mas o nome sobreviveu numa ruazinha perto do Père-Lachaise. O trajeto a pé que o texto descreve — subir pela Julien Lacroix, sair no boulevard de Ménilmontant — pode ser refeito hoje quase sem mudanças.
Rue Oberkampf, 11e Parmentier (3) ou Oberkampf (5, 9)
Lucilia GonthierEstanislau Picolet
No romance
O atelier do fotógrafo que tirou os retratos de Lucilia: “um mostrador de fotografias emolduradas luxuosamente, colocado à porta de um corredor de uma casa nova de boa aparência” e, no andar de cima, uma sala de espera com as paredes cobertas de retratos. Vale lembrar, ao passar: em 1879 a fotografia de estúdio era isto — uma vitrine na calçada e uma escada.
Hoje
Uma das ruas de vida noturna mais movimentadas de Paris. A vitrine com retratos emoldurados desapareceu do ofício inteiro, não só desta rua.
Ponto de referência do trajeto até o fotógrafo: apeia-se do ônibus “à estação que fica defronte do circo de inverno” antes de meter-se pela rua Oberkampf. Serve de bússola no romance como serve hoje.
Hoje
O Cirque d'Hiver, de 1852, continua no mesmo lugar e ainda funciona como circo — é o mais antigo edifício de circo do mundo em atividade. Uma das raríssimas paradas deste roteiro em que o prédio de 1879 está inteiro na sua frente.
A “sórdida loja de um ferro-velho, onde havia coisas cobertas de poeira e sem valor”, “atulhada de ferragens corroídas pela ferrugem”. É onde se encomenda a chave falsa: duzentos francos, metade adiantada, entrega no dia seguinte às dez. Chega-se a pé, subindo a rua da Roquete desde a Bastilha.
Hoje
Famosa desde os anos 1930 pelos bailes musette e hoje uma das ruas de bares mais cheias de Paris — o Balajo, de 1936, ainda está lá. A subida pela rua de la Roquette continua igual, e é o mesmo caminho.
A última morada da atriz Amélia Gonthier, mãe de Lucilia, indicada de memória pelo velho do teatro: “Já não me lembro do número. Só sei que era um pouco antes de chegar ao boulevard Richard Lenoir.” Na portaria, “uma porteira que fazia à máquina peitilhos de camisa”. É dela que sai a informação de que a busca precisava.
Hoje
Trecho de prédios com comércio no térreo, pouco antes do cruzamento com o Richard-Lenoir. Uma parada sem nada para ver — e é exatamente esse o ponto: o romance manda um personagem atravessar Paris para descobrir que a pessoa que procurava morreu na miséria num prédio comum.
Saint-Maur-des-Fossés, la Pie e a comporta de Créteil
Meio dia · RER A até Saint-Maur–Créteil, depois a pé ou de ônibus
A cena mais bem descrita do romance inteiro, e a mais fácil de reencontrar: o duelo ao nascer do sol de 24 de setembro de 1879, na margem do Marne. O romance dá o itinerário completo, cronometrado, desde o boulevard de Courcelles — hora e meia de fiacre, parada na ponte, e o resto a pé “porque não há caminho para trens ao longo do Marne”. Vá de manhã cedo, como eles, e almoce numa guinguette à beira do rio.
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Ponte de Créteil
Pont de Créteil, Saint-Maur-des-Fossés RER A — Saint-Maur–Créteil
César
No romance
A parada obrigatória do trajeto: “chegou a Saint-Maur-les-Fossés em hora e meia”, e para-se na ponte. Dali “a aldeia de la Pie fica ainda a uns dez ou quinze minutos”. Na extremidade da ponte, o restaurante de sala térrea, balcão e quartos no primeiro andar, onde se espera o amanhecer.
Hoje
A estrutura atual é bem posterior, e o lugar virou um nó rodoviário — mas o passeio às margens continua, e a conta de dez a quinze minutos até la Pie está certa.
O ponto exato do encontro: “a duzentos metros por cima da comporta de Creteil”. A cinquenta metros do terreno está a barragem, “donde o lençol de água, com a velocidade de uma bala, se despenhava sobre o plano inferior formando grandes novelos de escuma e soltando rugidos abafados”. O estrondo cobre o som dos tiros — e o romance sabe disso.
Hoje
O barrage-écluse continua em operação, regulando o nível do rio e dando passagem à navegação de recreio. O barulho da queda d'água é o mesmo. Fique dois minutos ali sem falar nada e você entende por que o autor escolheu este lugar.
La Pie, Saint-Maur-des-Fossés a pé, 15 min desde a ponte
Marcel LaugierHeitor Bégourde
No romance
O terreno do duelo: “as massas de verdura e os altos olmeiros espalhados pelas ilhotas do Marne estremeciam sob as carícias de uma brisa suave”. Escada de pedra encravada na riba, caminho de reboque, sebe espessa onde alguém se esconde para assistir, e a casa do barqueiro entre salgueiros.
Hoje
Hoje um bairro de Saint-Maur, no meandro do rio. A ponte da Pie e as margens arborizadas continuam lá; os antigos ancoradouros viraram área de lazer e clubes de remo. É a paisagem menos alterada de toda esta viagem.
O ancoradouro onde se aluga o barco da volta: a casa “do alugador dos barcos, que tem ao mesmo tempo restaurante e uma ilhota no Marne, aonde os parisienses vêm divertir-se ao domingo, e comer peixe frito e caldeiradas”. Daqui o ferido desce o rio até a ponte do Alma, em cinco horas de remo, com escala numa ilhota.
Hoje
É a descrição exata de uma guinguette — a instituição que fez a fama das margens do Marne e que ainda sobrevive em algumas casas de Joinville e Champigny. Almoce numa delas: peixe frito e caldeirada continuam no cardápio.
Meio dia · Transilien desde Saint-Lazare, ou RER C até Saint-Cloud
O contraponto verde do primeiro volume. Bosque, lagos e hospedarias a meia hora de Paris — a distância que a burguesia do romance percorria para se recuperar de alguma coisa, ou para não ser vista.
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Lagos de Ville-d'Avray
Étangs de Corot, Ville-d'Avray Transilien L — Sèvres-Ville-d'Avray
Heitor BégourdeMarcel Laugier
No romance
É aqui que Heitor convalesce do duelo, numa hospedaria à beira do lago — e é o ponto dramático destes capítulos do Vol. I.
Hoje
Subúrbio residencial arborizado, célebre pelos lagos que Corot pintou dezenas de vezes. A caminhada em volta dos étangs leva uma hora e é a coisa mais parecida com uma pintura do século XIX que se pode fazer perto de Paris.
Domaine national de Saint-Cloud RER C / Transilien — Saint-Cloud
Lazarine Leroux
No romance
Parque e comuna dos passeios do romance — o lugar para onde se vai quando o capítulo precisa de ar.
Hoje
Domínio nacional de 460 hectares sobre o Sena, com as cascatas de Le Nôtre. O castelo foi destruído em 1870, na guerra que o romance tem como pano de fundo recente: sobrou o terraço e a vista de Paris.
Os castelos do romance — la Tour-du-Roy, Gordes, Vertes-Feuilles, la Grand-Cour — são todos inventados. Mas Montépin os ancorou numa região real e a nomeou com precisão: o Loiret, a uns 110 km ao sul de Paris, na vizinhança de Orléans. Não há o que visitar, e é justamente por isso que a viagem funciona — você vai ver a paisagem que o autor tinha na cabeça, não o cenário.
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Orléans
Orléans, Loiret trem desde Paris-Austerlitz, ≈ 1h
Lazarine Leroux
No romance
A cidade real mais próxima da trama, e o ponto de embarque ferroviário rumo a la Tour-du-Roy. A floresta privada do castelo, diz o texto, “vai até o outro lado de Orléans”.
Hoje
Centro histórico restaurado, catedral de Sainte-Croix, e o Loire logo abaixo. Bom ponto de partida e de almoço.
É “ao lado de Olivet, não longe de la Tour-du-Roy” que fica o castelo de la Grand-Cour, casa de campo de um grande editor parisiense. É a única âncora geográfica real que o Vol. II dá para toda a paisagem da Primeira Parte.
Hoje
Comuna colada a Orléans, célebre pelos moinhos e pelas casas ribeirinhas às margens do rio Loiret. Alugue uma bicicleta: o caminho à beira do Loiret entre Orléans e Olivet é curto, plano e é exatamente o tipo de paisagem que o romance descreve sem nomear.
O romance não se passa numa Paris só. O fecho da Primeira Parte ainda está em
1875, no Loiret, nos castelos inventados do primeiro volume. A Segunda Parte
inteira é Paris, no outono de 1879 — e é uma Paris muito mais real e muito mais
precisa: Montépin dá números de porta, itinerários de coupé rua por rua, horários de ônibus e
preços de aluguel de carruagem. Quase todos os endereços existem, e a maioria pode ser
visitada hoje. E há ainda um flashback em 1860, vinte anos atrás, numa Paris
anterior à conclusão das reformas de Haussmann, com barreiras de octroi, bailes públicos e
depósitos de madeira onde hoje há prédios. O narrador tem consciência disso e comenta a
diferença em voz alta, como quem mostra fotografias antigas ao leitor.
O eixo social é o verdadeiro assunto
De um lado o oeste nobre — Faubourg Saint-Honoré, rua Francisco I, parque
Monceau, avenida de Villars. Do outro, as alturas de Belleville e Ménilmontant,
anexadas a Paris só em 1860 e ainda meio aldeia. O romance faz as duas metades colidirem, e é
por isso que a viagem de fiacre de uma à outra é cronometrada tantas vezes no texto. Quando
Lucilia atravessa a cidade de ônibus, de Belleville até a rua de Verneuil, ela não está
andando: está mudando de mundo. Faça o percurso de metrô — linha 2 até a República, depois a
pé — e a distância social continua legível na arquitetura.
O que Haussmann fez, e o que o romance viu
A Paris de 1879 era recém-construída. O parque Monceau e o bairro em volta tinham quinze
anos; o boulevard Malesherbes fora aberto em 1861; a Ópera Garnier inaugurara em 1875. Quando
Montépin descreve a rua Murillo, está descrevendo um bairro novo em folha, como quem hoje
escrevesse sobre um condomínio recém-entregue. O efeito para nós é invertido: aquilo que era
novidade virou o mais intacto. É no oeste que o romance é mais fácil de ver —
e em Belleville, que era o velho, quase nada sobrou.
A Paris de 1860 do flashback
Os capítulos do flashback percorrem outra cidade: Batignolles, que acabara de ser anexada;
a barreira de Clichy, onde se pagava imposto para entrar com mercadoria; os depósitos de
madeira atrás da estação do Havre; a abóbada do canal Saint-Martin, coberta entre 1860 e 1862
para abrir o boulevard Richard-Lenoir. Esse trecho do canal ainda existe, e hoje se atravessa
de barco no passeio fluvial mais conhecido de Paris — dentro do túnel onde dois homens
combinam um crime, sentados no parapeito com as pernas pendentes.
O que sumiu, e o que ficou no lugar
Teatro de Belleville
Demolido em 1932; hoje comércio no nº 46 da rua de Belleville.
Café Riche, Café Inglês, Brébant
Os três templos do boulevard fecharam no início do século XX. O Inglês foi demolido em 1913.
Prisão de Mazas
Demolida em 1900. Sobrou o nome na place Mazas, junto à ponte de Austerlitz.
Grande Roquette
Demolida em 1900. As cinco lajes onde se montava a guilhotina continuam embutidas no asfalto da rue Croix-Faubin, em frente ao nº 16.
Galés de Toulon
O bagne fechou em 1873 — seis anos antes da ação principal do romance.
Barreira de Clichy
Sumiu com a anexação dos subúrbios em 1860. O cruzamento é a atual place de Clichy.
Baile do Château-Rouge
Desapareceu no fim do século XIX. O nome ficou no bairro e na estação de metrô.
Rua de Berlin
Existe, com outro nome: virou rue de Liège em 1914, em plena guerra contra a Alemanha.
Gare do Havre
É a Gare Saint-Lazare. Os parisienses a chamavam pelo nome da praça em frente.
Seminário de Saint-Sulpice
Os seminaristas saíram em 1906; desde 1922 o prédio é do Ministério das Finanças.
Quem você vai encontrar
Os retratos abaixo são os do próprio livro-web, gerados a partir das descrições que
Montépin dá de cada personagem — em duas versões, fotografia de época e óleo. Nas paradas
dos roteiros eles aparecem ao lado de cada endereço: são as pessoas cuja vida acontece ali.
Lazarine, Marquesa de la Tour-du-RoyCésar, Barão de FossaroMaria, Condessa de VergisJacques SureauDoutor Antonino FrébaultLucilia GonthierFernando VolnayBranca RenéeJoão MalpertuisGenoveva LeinenDuquesa Joana de ChaslinEstanislau Picolet, o Sta-PiHeitor Bégourde, o Príncipe TotorMarcel LaugierDaniel GailletLazarine Leroux, aos vinte
Notas práticas
As três caminhadas foram desenhadas para serem feitas em qualquer ordem e em qualquer dia.
A do oeste nobre é a mais longa e a única que atravessa o rio; se o tempo for
curto, corte na ponte do Alma. A da Ópera ao Monceau é plana, curta e cheia
de cafés — boa para um fim de tarde. A de Belleville é quase toda em descida
se você começar no alto, e rende mais no fim do dia, quando o bairro acorda.
Duas coisas que valem a pena checar antes de sair: os horários de visita da igreja de
Saint-Sulpice, que mudam conforme a temporada e os ofícios, e o funcionamento das guinguettes
do Marne, que em boa parte só abrem nos fins de semana e no verão. O resto é rua, e rua está
sempre aberta.
O romance é a fonte de tudo que está aqui entre aspas. As descrições do
“hoje” foram levantadas em agosto de 2026 — confira endereços e horários antes de contar
com eles, porque Paris continua se mexendo, como fazia em 1879.